me olhe nos olhos

Complexo Cultural do Teatro Deodoro Maceió/AL

  Uma das premissas da produção artística de Igor Rodrigues é provocar no visitante diante de suas obras certa indagação. Apesar de esse ser um dos vetores da arte, o preceito aqui se aplica como conceito fundamental na recente produção do artista. Em Me olhe nos olhos, Rodrigues nos pergunta se estamos interessados em suas pinturas por mera contemplação ou se as reconhecemos tal qual espelhos de nós mesmos. Isso porque sua obra parte da construção de si enquanto um sujeito negro em uma sociedade marcadamente racista, tema que norteia os trabalhos imbuídos de figuração estética, com notas de surrealismo.
  Formado em psicologia, o artista baiano se interessa pela pintura como processo de autoconhecimento, proporcionado tanto pelos estudos acadêmicos quanto pelas sessões de terapia. Nesse sentido, as obras concebidas no último ano examinam de que maneira é possível se conhecer pelo “eu” e qual a relação desse “eu” com o “outro”. Segundo o psiquiatra e filósofo Frantz Fanon, “para obter a certeza de si-mesmo, é preciso a integração do conceito de reconhecimento”.i Interessado nesses fundamentos, Rodrigues constrói, então, uma obra imbricada nas relações de sua persona.
  Por meio de memórias e frases que marcaram sua subjetividade, o artista costura a teoria psicanalítica à sua própria história. Atento às discussões à sua volta, elege a pintura no âmbito de parâmetros destituídos de formalidades estéticas, alinhada com as poéticas de outros artistas negros/as/es contemporâneos. Entre essas narrativas e a técnica que experiencia o suporte, o exercício com a figuração faz jus ao pacto coletivo que assimila a linguagem em consonância com seu tempo, sempre buscando questionar a própria história da arte e a presença negra nesse percurso.
  Carvão, acrílica, espelho e papel são os materiais em destaque nas composições que reverberam, nos retratos, as perguntas às quais Rodrigues busca responder. A escolha do papel, nessa investigação, dá-se de forma consciente. Apesar da delicadeza do material, as imagens que emergem do suporte são concebidas em generosas escalas, subvertendo seu próprio uso. As figuras de olhos marcantes encaram o espectador, passível de se perceber – e ser percebido – por meio dos enigmas propostos nesta série. Altivas e imponentes, levam cores que ora impregnam o fundo da pintura, realçando os contornos que delimitam as personagens, ora as vestem com certa elegância. Se, por um lado, essa escolha se dá de forma estética, por outro revela as experimentações do artista em formação.
  Entre os códigos que recorrem aos motes que servem de base para a presente mostra, decerto os olhos são os fios que conectam as pinturas como um único corpo político. Propondo uma reflexão sobre racismo, branquitude, silenciamento, saúde mental, arte e psicologia, temas caros à população negra, a série parte de questionamentos sobre ver e ser visto, a partir de uma produção que é autobiográfica, mas que evidencia questões políticas e sociais do senso comum.
  Diante de discussões cada vez mais urgentes, Igor Rodrigues nos apresenta, apoiado em suas próprias dores, os caminhos pelos quais a obra de arte surge enquanto forma de visibilidade do povo negro, atuando como ferramenta para a construção de uma sociedade mais igualitária.

                                                                                                                        Deri Andrade

i FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008, p. 181.

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